Iansã, deusa africana dos ventos e das tempestades, a defenderia dos raios e tormentas, a deusa forte, sensual, autoritária, a única capaz de enfrentar o espírito dos mortos e a escolhida pelas mulheres baianas inquietas e de grande vida sensual. Maria Bethânia não escolhera: fora escolhida.
No terreiro de candomblé, em Salvador, a babalaô (mãe-de-santo) Aninha de Gantois, toda vestida de branco, a cabeça raspada, jogou as conchas na mesa consagrada a Ifá, o deus nigeriano das adivinhações, ao lado de uma vela acesa e um copo de água. Lançados os búzios, a babalaô se concentrou na interpretação de sua disposição e, depois de uma pausa, revelou à mocinha de cabelos crespos e olhos castanhos imensos, toda envolta em expectativa e ansiedade: "Bethânia, seu anjo da guarda é lansã, minha filha".
Será por isso que, no palco, ela se transfigure ao cantar "Iansã", de Gilberto Gil e "Caê", como chama seu mano Caetano Veloso? Em transe, sem um gesto, ereta, envolta numa atmosfera violácea, sua voz parece quase viril entre os tambores: "Senhora das nuvens de chumbo / Senhora do mundo / dentro de mim / Rainha dos raios / Eu sou um céu para tuas tempestades / Deusa pagã dos relâmpagos / Das chuvas de todo o amor / dentro de mim / tempo bom, tempo ruim". Mais ainda, em todas as fases de "Drama - Luz da Noite", seu show que estréia esta semana em São Paulo, depois de uma temporada de quarenta semanas no Rio e em Salvador, ela é literalmente eletrizante de fascínio.
Sua voz é híbrida. Sai áspera, particularmente gutural quando ela canta o folclore anônimo da Bahia - como na época de sua explosão, em 1965, no palco do Teatro Opinião, no Rio, cantando "Carcará", a litania rebelde da fome do nordeste simbolizada na ave sem piedade que "pega, mata e come". Mas flui doce, suplicante, ferida, quando Bethânia descreve o amor desfeito.
Ela também é hermafrodita nos gestos hierátices, duros, contidos, e na maciez lânguida, dengosa de sua feminilidade afro-baiana.
'SEMPRE OSCILANDO' - São círculos concêntricos que Maria Bethânia Viana Telles Veloso, 23 anos, vai criando em torno de si.
No palco, atua como uma oficiante de um ritual místico e secreto: "Eu me dou toda, eu sou quando estou no teatro. É quando meus poderes de médium baixam sobre mim e faço um passe na platéia, entende? Assumo a alegria e a tristeza de toda aquela gente desamparada, que se reencontra em mim como num espelho".
No disco, a vibração e o frêmito da sua figura magnética perdem parte da intensidade, da mesma forma que os efeitos plásticos da luz e da cor desaparecem no acetato.
Como pessoa, na sua casa de estilo japonês-baiano de São Conrado, junto à estrada Rio-Santos, ela se encolhe quando troveja e arrepiada explica: "Sei lá se minha madrinha do céu, Iansã, de repente se irrita? E pode lá existir pára-raio contra a raiva da rainha dos raios?"
O sotaque baiano, preguiçoso, não deixa formar o "nh" de ninho, reduzido sensualmente para "niu". A descontração é autêntica, como é autêntica a alegria de receber dezenas de amigas, a maioria aos pares, que vêm prestar homeagem à Madona da Purificação da Barra.
O narcisismo é e não é genuíno. "Sou de, Gêmeos, Mercúrio rege minha vida, por isso sou triste e alegre, um momento estou na 'fossa' mais negra, um segundo depois sou estouvada, alegre, barulhenta. Estou sempre oscilando." A sofisticação é altiva: túnicas indianas que produzem um efeito erótico ao semidesvendarem os seios, o amor pelo requinte, pela elegância, por Paris. Sua voz é abafada, acariciante quando chega uma amiga. "Como ela está linda! Lavou o cabelo, não é?" Incorporou a cafonice, o kitsch e os nomes maiores da literatura como valores culturais idênticos: o que causou uma restrição hippie do seu vocabulário de dez ou doze palavras estandardizadas que englobam o bom e o mau, Angela Maria e Fernando Pessoa a deixam "vidrada", andar de avião "é um grilo", Roberto Carlos "e aqueles olhos de profeta de outro planeta, de Anjo Bom da calmaria que vier depois do escurecer final que já estamos vivendo", Roberto Carlos é "a glória, o desbunde total". Clarice Lispector "eu amo", Nora Ney, Aracy de Almeida, Billie Holiday, Jane Fonda "estão caindo de maravilhosos".
'A AMARGURA DE AGORA' - No alto da prateleira de livros e discos, uma imagem está sufocada por fitas brancas que a envolvem como ataduras, todas com a inscrição "Lembrança do Senhor do Bonfim". Uma fotografia em sépia, transformada em poster, recorda a Santo Amaro da Purificação natal, a 70 quilômetros de Salvador, não a de agora: a que ela lembra de quinze, vinte anos atrás. Hoje, a doçura dos canaviais foi substituída pelos caminhões nas estradas interestaduais, o petróleo arruinou os engenhos e bangüês invadidos pelo capim. "Eu daria tudo para voltar a ser a menina que era em Santo Amaro, mas não com a experiência, a amargura de agora, mas como eu era, com a inocência da infância" - ela afirma balançando as dezenas de pulseiras "de proteção contra inveja e mau-olhado", os colares rutilantes brilhando na penumbra do entardecer.
Sua carreira fulminante Bethânia aceita como "um peso que pressentia ter de carregar. Sempre soube que ia ser atriz, cantora, declamadora". Mas essa ascensão, que ela acha "um conto de fadas", se ela tivesse uma varinha de condão, desfaria toda para voltar atrás. Foi uma vida em que ela já era predestinada, a caçula de uma família de oito irmãos (dois adotivos). Com 4 anos de idade, Caetano Veloso já teimava com a mãe que a criança que ela ia ter breve seria menina. "Mainha não quer mais menina, não", respondia dona Canô, que já tinha com seu Zeca, funcionário dos Correios, três meninas e três meninos. Mas o garoto insistia: "Vai ser menina e vai se chamar Bethânia". Era o nome de uma valsa cantada por Nélson Gonçalves que Caetano ouvia no rádio. "Onde já se viu mulher com nome de música?", espantou-se o pai. Mas, democrático, seu Zeca resolveu apaziguar os ânimos. Já que Caetano não podia assistir ao parto, apesar de toda sua insistência, participaria da escolha do nome da irmã.
Seu Zeca, calmo, colocou na boina do caçula os nomes propostos, todos começando por Maria, a virgem protetora de Santo Amaro da Purificação naquela casa devotamente católica. E foi categórico ao explicar ao filho: "Você está vendo que estão todos aí. Fica acertado que o nome que sair sera o definitivo". Sem hesitar, o menino tirou um rolinho de papel. Estava escolhido o que hoje é o ídolo de milhões de brasileiros, o da única atriz-cantora-declamadora-intérprete que lota anos seguidos todos os teatros com seus shows e a única que bate todos os recordes de vendagem de discos no Brasil: Maria Bethânia. Ao lado do nome de Nossa Senhora, justapôs-se o da cidadezinha árabe, Bethânia, aldeia natal de Lázaro, que ressurgira dos mortos, e das irmãs Maria e Maria: Marta, a ativa, trabalhadeira, e Maria, a contemplativa.
'PAIXÃO CONTIDA' - Naquele paraíso romântico perdido, a imaginação era a complementação da afetividade que unia aquela família sólida de classe média, sem luxos nem artificialismos.
A mãe, dona Canô, "morena, linda", fazia quitutes maravilhosos, e Bethânia "adorava pôr pimenta-do-reino em tudo, demais: a pimenta é o sal dos deuses dado aos humanos". O pai, comedido, profundamente religioso, guardava com recato todos os dias santificados e obrigava os filhos a irem à missa todos os domingos, a comungarem, a se confessarem.
Bethânia saiu à mãe, "paixão contida". Caetano ao pai, "lucidez acima da paixão", delicadeza em vez de arrebatamento. Com Caê, ela brincava o dia inteiro. "Por exemplo, Caê punha um turbante na cabeça, enrolava uma saia velha de mamãe na cintura e ficávamos deitados no quintal, eu e ele éramos faquires da Índia. O dia inteiro deitados de costas, olhando as nuvens, sem sentir as facas imaginárias cravadas nas costas." Com dois outros irmãos, Roberto e Rodrigo "e naturalmente o Caê sempre", subia nos pés de araçá dos fundos do pomar da casa. Passeava na chácara da professora de piano de Caê, Aidil Barros, sobretudo participava das representações na escola de freiras onde não se misturava com as colegas, "todas quadradas, burras, um horror". Representava peças singelas em que se cultuavam as flores, as imagens.
Mas os atos castos e exangues das freiras não bastavam. Caê e Bê (como se chamam mutuamente) estendiam um pano nos galhos de araçazeiro e era a cortina do palco. Mistura de programa de calouros com recitais de poesia e declamação, eram skatches variados em que Bê surgia detrás do pano e com voz já firme anunciava: "Bom dia, boa tarde / Senhora da varanda / Papai não está em casa / O senhor vá se abancando".
'ATÉ AS LÁGRIMAS' - Sua personalidade sempre foi, desde menina, "tirana", segundo o irmão Rodrigo, "esporreteada" de acordo com o pai e "forte, fascinante" como a define Caetano. Preguiçosa, repetiu todos os anos até parar no quarto ginasial. Só em português e francês tirava 10 com louvor. "Bê poderia ser escritora, se quisesse", diz a teatróloga Isabel Câmara, distendida no sofá da sala de Bethânia para quem lê Proust e, com o escritor de teatro Antônio Bivar, escreveu o espetáculo "Drama".
Enfadada com o ginásio, Bethânia "colecionava zeros em matemática, apesar da professora maravilhosa que dizia 'Eu te adoro'". Para compensar o tédio da escola, freqüentava circo, procissão, missa, ia à Escola de Teatro, que no início da década de 60, sob a direção de Martim Gonçalves, era a melhor do Brasil, com montagens deslumbrantes de Lorca de Brecht, de Tchekov. "O teatro foi uma paixão que me consumia aos poucos", mas irresistivelmente. Quando em Salvador se montou a tragédia suburbana carioca do bicheiro "Boca de Ouro", de Nelson Rodrigues, ela se aniniou a aceitar cantar detrás da cortina, antes de começar a peça, "Na Cadência do Samba", de Ataulfo Alves. Daí ao show que montou com Caetano e Gilberto Gil, "Nós por Exemplo", já tinha atingido a segurarça e a majestade que a caracterizavam em cena. "Bethânia já era uma coisa absoluta sob a luz dos refletores", relembra Caetano.
A literatura não foi abandonada: continuou como um rio subterrâneo, mas só a literatura que fala ao coração, "que te toca até as lágrimas, até o deslumbramento total" - por exemplo, "Legião Estrangeira", de Clarice Lispector. "O Coração é um Caçador Solitário", de Carson McCullers. O teatro total, sem canto, só interpretação dramática. Bethânia acha que está no seu destino: "Mas ainda não estou pronta. Aí representarei a mãe de 'Os Fuzis da Senhora Carrar' ou a Jenny da 'Ópera dos Três Vinténs', de Brecht, ou a Adela da peça 'A Casa de Bernarda Alba', de Lorca. Sabe, aquela mulher alucinada de paixão, que só teve a babaquice a se matar quando devia era ter fugido com o amado e da repressão que sofria". Ou Electra: "Tenho paixão". Mas só faria teatro com o diretor Fauzi Arap, sua "alma masculina, assim como eu sou a alma feminina dele".
'DEVIA SER TROTE' - Ouvia tardes inteiras discos de Billie Holiday que um diretor de teatro lhe revelara e que foi para ela "a explosão, entende? Saber que aquela mulher podia cantar daquele jeito! Ela, a Edith Piaf, a Judy Garland, a Aracy de Almeida, madrinha Narinha (Leão) me convenceram de que um dia eu chegaria a cantar também". Madrinha Nara acreditara nela, lembrara-se daquela baianinha de 17 anos que ouvira em fita gravada quando fazia uma turnê em Salvador, em 1965. Nara estava exausta de cantar seis vezes por semana no show musical "Opinião", que lotava o Rio de Janeiro mês após mês, ininterruptamente. Mas quem deixaria Bê sair da Bahia?
Sua amiga, a atriz Nilda Spencer, é que conseguiu vencer a resistência de dona Canô. Que explica: "Bethânia nos quebrou de pé e mão, nós achávamos que ela não conseguiria substituir Nara, uma cantora já famosa. Mas disseram que não era Bethânia e sim a Bahia que estava sendo representada. Fizesse ou não sucesso, a gente teve que ceder". Com uma condição inapelável: que Caetano Veloso, então inscrito na Faculdade de Filosofia, a acompanhasse ao Rio. Bethânia não acreditou quando lhe telefonaram. "Devia ser trote, tanto que respondi: 'Sinto muito, mas não posso, tenho que substituir a Billie Holiday num show daqui'". Mas acabou não resistindo. Obedeceu, levada pela mão do irmão e pela segurança que a família lhe confirmou.
'CANÇÃO DE AMOR' - Não era mais a menina-moça "capaz de ficar roxa e se jogar dura no chão para conseguir o que queria", como a descreve Caetano. Nem a "exótica" que chocava Santo Amaro da Purificação com unhas de esmalte de várias cores e fantasia de palhaço no clube "Filhos de Apolo". Nem a adolescente esfuziante que corria atrás do trio elétrico no carnaval ou ficava em casa cantando "Último Desejo" ou ouvindo até gastar o sulco as gravações de Orlando Silva, de "Andaluzia" e "Feitio de Oração". No Caravelle, teve pavor, mas no camarim, enquanto ouvia o zumbido da platéia cheia, estava calma.
Espocou no palco do "Opinião" o que um crítico na época qualificou de "diamante bruto ou grito da caatinga de Lampião, do Padim Ciço, da seca e da fome do nordeste". Para Bethânia, ao contrário, a força social da canção que alinha as porcentagens de nordestinos que abandonam seus Estados sangrados pela miséria e o impacto da imagem da ave inclemente que "pega, mata e come" para não ser comida "é uma canção de amor - senão eu não saberia cantá-la". Seus seguidores e seu séquito dizem mesmo que Maria Bethânia fala pelos marginalizados, pelos excluídos. No Rio, um senhor solitário, cinqüentão, assistiu 36 noites seguidas a seu show "Rosa dos Ventos", que teve mais de seiscentas apresentações. Uma senhora paulista entrou pelo seu camarim e agitada, arfante, lhe disparou a pergunta: "Bethânia, depois de ver e ouvir e sentir tudo isso que você encarnou, o que é que eu faço da minha vida? Me diga, pelo amor de Deus!".
As fiéis que freqüentam seu templo em São Conrado completam, afirmando que ela é "um oásis seguro e um refúgio". Talvez por coincidência muitas são fisicamente feias. Mas todas ganham de Bethânia a voz mais acariciante, o comentário mais delicadamente pessoal: "Que barato essa roupa, menina!", "Então, tudo melhor? Graças a Deus, Oxóssi e Iansã, querida". Com intimidade, chama as pessoas cujo olhar interpreta como desprovido de malícia ou inveja de "meu santo", "minha santa", "meu filho", "neguinha". Mas há uma face violenta dela que, como uma granada, detona quando pisada.
Inconformada com o que chama de "mau caráter total" de seu ex-empresário Guilherme Araújo, não vacilou quando o viu entrar pela sua casa adentro com cameramen da televisão italiana. Saiu "nuinha em pêlo do banho" e o agrediu com a violência "di una pantera feroce", segundo definiu um câmera presente, enquanto o empresário corria, advertindo: "Cuidado com o meu maxilar! Cuidado com o meu maxilar!". Sua casa, no entanto, é um porto seguro, a salvo das tempestades, por isso quase não sai, não aceita convites para jantar, a não ser raramente.
'CADA TANQUE' - Diante da piscina com uma bóia verde do elefante Dumbo de Walt Disney, as treliças de madeira ocre só deixam entrever o interior, protegido por guardas postados no portão de fora e pela ferocidade da cadela Policial "Bruma". Em vários níveis, a casa reproduz os quatro elementos que formaram a constelação de "Rosa dos Ventos". O mato está no jardim, na floresta da Tijuca circundante e nos galhos de arruda que Bethânia usa atrás das orelhas. O mar, poucas esquinas adiante, pena que não tenha o "cheiro verde" do mar da Bahia. O fogo arde nas velas votivas. A terra abrange desde o jardim que ela gosta de pisar descalça até o elemento mineral, misterioso.
"Esta Pedra da Gávea", e ela se cala, olhando as rochas que, para alguns arqueólogos, conteriam inscrições fenícias ou hieróglifos do Antigo Egito gravados no granito. Tudo que é de religião para Bethânia é sagrado: do candomblé aprendeu a lei do silêncio, do segredo quanto mais recôndito mais forte, as fórmulas que as mães e pais-de-santo transmitem sigilosamente aos filhos numa linha que veio do Daomé e da Nigéria desembocar na Bahia. "Uma religião não só de escravos e oprimidos mas de Reis e Rainhas também, não se pode esquecer", ela frisa com indisfarçável orgulho, como se descendesse de um soberano negro. Comove-se visivelmente quando lhe dizem que seu poeta preferido, Fernando Pessoa, foi um iniciado em ocultismo e um seguidor da teosofia da russa Blavatskv. Quer saber mais, espera um livro que lhe avisaram "está para sair" sobre os heterônimos do grande poeta português, talvez orixás que possuíam o autor de "Mensagem". Lerá? Espreguiça-se e sorri um sorriso infantil, terno, acolhedor. "Sou um poço de preguiça, sabe? É dengo de baiana. Não leio sobre candomblé. Não estudo. Não li nem todo o livro ("Bethânia Guerreira Guerrilha") que o (poeta e jornalista) Reynaldo Jardim fez para mim. Não sou uma intelectual. Nunca. Eu sinto. E vivo."
Isabel Câmara interrompe para negar: "Que nada, a Bethânia lê muito escondido, escuta Proust quando eu leio para ela e escreve com talento de escritora maior". Bethânia ri, envaidecida mas relutando. Desenha figuras geométricas, ultimamente anda pintando quadros que só os íntimos podem ver. Resiste a abordar assuntos mais sérios. Dá gargalhadas das emancipacionistas femininas. "Cada tanque! Aquela Betty Friedan, Deus do céu! Claro, eu quero que a mulher seja livre, todos devem ser o que são, mas ser como a Jane Fonda, caindo de linda, verdadeira, apaixonada pelas coisas em que acredita."
'OUTRAS ENCARNAÇÕES' - Como um caracol vai-se fechando na casca de uma incomunicabilidade crescente à medida que as perguntas são sobre homossexualismo, sobre assumir-se. Limita-se a sublimar com um olhar que tem a intensidade relampejante de sua protetora Iansã: "Eu não minto para mim mesma. E basta!". Interrompe, staccato, seca, quando se fala em Gay Power: "Detesto, acho ridículo!"
Ela não vive apartada do mundo então naquela casa só freqüentada por grupos homogêneos, de amigas particulares? Não vive numa espécie de gueto? Faz beicinho de criança ignorante, pede para Isabel Câmara traduzir: "O que é gueto?" Depois de uma pausa longa em que continua desenhando, abstraída de tudo, esclarece que não gosta de falar de "coisas amargas. Não sou profunda nem quero aprofundar nada. Para não sofrer. Eu sei de coisas...que me contam...e fico triste. Não leio jornal. Procuro cada vez saber menos das coisas. Eu prefiro ficar por fora porque não posso nunca morar fora do Brasil. Eu me apóio na religião, entende? Mas sei lá o que eu fiz nas outras encarnações para passar o que eu passo agora. Gêmeos é assim: oscila do pessimismo à euforia, tudo extremo de um segundo para o outro".
Por isso talvez alterne a claustrofobia que os estúdios de televisão lhe provocam com o horror às multidões que a impede de freqüentar o cinema. Tem medo de estar com muita gente numa sala assistindo a um filme, mas tem mais pavor ainda ("até do que avião, hotel e morar no estrangeiro") de não se sentir livre, se possível totalmente. A televisão, não. "Aquela luz chapada, fria. E o diretor que te diz: 'Olha. você só pode andar daqui pra lá. Só pode caminhar até aquela porta ali'. E eu posso?" Não pode.
Em shows, ela em certos momentos se deita no chão, ou vira as costas para o público, ou canta escondida, ajoelhada, em posições iogues. Ou coloca o próprio camarim em cena: "Porque o público não pode ver o artista se preparando?" Enquanto se maquila, num strip-tease invertido ela se veste à medida que as luzes lentamente se acendem. Depois, a liberdade de recriar cada momento, cada noite, nunca o mesmo ritmo, a mesma forma de sentir. "Eu apresentei 'Rosa dos Ventos' durante dois anos e nenhuma noite foi igual à outra, nunca fiz nada repetido, mecanicamente. Eu sou assim. Sempre improviso. Na hora. Tudo muda diariamente conforme meu humor, meu ritmo interior. Eu tenho no coração um rubi com 29 portas que mudam sempre."
'SEMPRE ABANDONADA' - Hoje ela é "diamante bruto" que foi lapidado pelo Rio de Janeiro. Sobretudo, Bethânia não aceita ficar estereotipada como "força bruta do nordeste". É do Recôncavo, da zona úbere da Bahia, nunca passou miséria. A agressividade se insinua quando duvidam da sua versatilidade e da sua capacidade de assimilar o estilo carioca de Noel Rosa e do bairro do Estácio. "Só porque sou baiana então só posso falar de acarajé e efó? Se eu fosse do Recife só poderia falar de frevo e maracatu?" Ao contrário, acha que as "canções de fossa" (fossa nova ou velha) - sobretudo as de Roberto Carlos, "o Anjo que virá depois do Anjo Exterminador" - são um lado secreto seu que se expõe quando canta.
Decepções amorosas ("fui sempre abandonada pelas pessoas que amei"), a saudade da família, a nostalgia da infância inocente perdida, a angústia que dois anos de psicanálise não solucionaram, a perda da fé católica que Caetano lhe transmitiu ao lhe declarar antes de uma missa que "Deus não existe", tudo isso ela exprime - ou tenta exprimir - em músicas como "O Show já Terminou", de Roberto Carlos, que ouve até vinte vezes por dia. Ou nos sonhos apavorantes que costumava às vezes ter: caldeirões de azeite fervendo sendo preparados enquanto ela, amarrada, esperava com horror e impotência ser atirada viva neles. Cemitérios de cruzes escuras com os túmulos cheios de ônibus em frangalhos. Essa fase, porém, já passou. Sua amiga Leiria Krespi a levou há alguns anos a uma tenda espírita e, de volta à Bahia, Bethânia começou a freqüentar o candomblé. "A umbanda me decepcinou porque proíbe o sexo, proíbe o beijo, proíbe quase que a gente de ser humano. O candomblé, não, aceita tudo - homossexualismo, castidade, tudo, desde que haja amor e honestidade. Aprendi que cada folha é um santo, cada riacho é um deus, cada árvore é uma divindade. E me estabilizei mais."
Ela adora a parte ritual do culto: pela casa há copos de água "para o anjo da guarda", ao lado da motocicleta Yamaha com que percorre, a 150 quilômetros por hora, as curvas de São Conrado, apertadas entre os morros e o mar. Quando come, pipoca. derrama sal na cabeça, "para Oxóssi". Não bebe cerveja sem antes espalhar um pouco no chão "para Omolu, que adora beber álcool". Como uma concha, vai-se fechando à medida que as perguntas se tornam mais inquisitivas. Não entende de política nem quer entender. Não está autorizada a falar sobre o afastamento do irmão e de Gilberto Gil do Brasil. A Censura não a incomodou nunca, "os censores são pessoas instruídas". Não vai a cinema há cinco anos, admira Greta Garbo e Nara Leão que "souberam curtir a delas", uma abandonando a tela "no auge da divindade", outra deixando a carreira para voluntariamente cuidar dos filhos e do marido, o diretor de cinema Carlos Diegues.
'VONTADE DE MORRER' - Só não consegue viver fora do Brasil. As dezessete cidades alemãs que visitou lhe deixaram uma impressão de frieza, de gente robotizada, exceto os jovens "muito ligados em Tom Jobim, em Baden Powell, em Gilberto Gil e Caê". Mas das butiques de Munique "onde ia comprar umas roupetas" a levaram para um lugar "lindo, com chalés, rios correndo, montanhas cobertas de neve". Era o campo de concentração nazista de Dachau. Com acento sincero de espanto e involuntariamente cômico ela grita ao relembrar sua "vontade de morrer naquela horinha, ali mesmo, naquele instante. O quê? Dachau! Campos com gás nos chuveiros? Cadáveres amontoados nas valas? Virgi Nossa Senhora, Iansã que me proteja!"
O sucesso, a fama, a riqueza só a alteraram para pior, pessoalmente, para melhor, religiosamente: "Cantando e representando eu me dou aos outros - é a minha sina e uma Cruz que eu carrego com resignação e alegria". Mas o que quer mesmo é voltar para Santo Amaro da Purificação - purificada. Morar na Ilha Pequena, comprar uma casa para os pais, outra para ela. E deixar de ser Maria Bethânia, o mito, para ser a menina Maria Bethânia Viana Telles Veloso, tudo como era antes: com o irmão Caê, os pais adorados, humildes e admiráveis, os amigos e amigas, os amores contrastados. E, quando estiver só, "mas só mesmo", assumir sua dualidade astral de Gêmeos: sorrir para a vida, entusiasmar-se com tudo e depois, ouvindo os discos de Billie Holiday, e, mesmo sem entender uma palavra de inglês, chorar.